Charles Darwin nasceu na casa da sua família em Shrewsbury, Shropshire, Inglaterra, em 12 de fevereiro de 1809. Ele foi o quinto dos seis filhos do médico Robert Darwin e sua esposa Susannah Darwin. Seu avô paterno foi Erasmus Darwin e seu avô materno, o famoso ceramista Josiah Wedgwood, ambos pertencentes à proeminente e abastada família Darwin-Wedgwood e à elite intelectual da época. Sua mãe morreu quando ele tinha apenas oito anos. No ano seguinte, em 1818, Darwin foi enviado para a escola Shrewsbury. Ali, ele só se interessava em colecionar minerais, insetos e ovos de pássaros. Quando criança, Charles Darwin dava poucas indicações de que se tornaria o cientista tão dedicado e entusiasmado que o mundo viria a conhecer. Era rude e maldoso, aprontando travessuras, mentindo e roubando para chamar a atenção. Os biógrafos relatam, da infância de Darwin, um episódio em que tentou quebrar a janela de uma sala em que fora trancado como castigo por mau comportamento. Ele parecia tão pouco promissor que seu pai, um rico médico, acreditava que o jovem Charles acabaria desgraçando o nome da família. Embora seu desempenho escolar fosse fraco, demonstrava interesse por história natural e em colecionar moedas, minérios e conchas. Seu pai o mandou para a University of Edinburgh para estudar medicina, mas logo o jovem se mostrou entediado. Como resposta, o pai disse-lhe que deveria tornar-se clérigo.
Darwin passou três anos na Cambridge University e achou a experiência uma perda de tempo, pelo menos do ponto de vista acadêmico. No âmbito social, no entanto, achou fantástico, tendo sido esse o período mais feliz da sua vida. Passava os dias e as noites bebendo, cantando, jogando cartas, fazendo parte de um grupo que descrevia como esbanjador e de baixo nível intelectual. Também colecionava besouros.
O botânico John Stevens Henslow, um de seus professores, conseguiu uma indicação para Darwin como naturalista para fazer parte da excursão do HMS Beagle, um navio que o governo britânico estava preparando para uma viagem científica ao redor do mundo. A famosa excursão que durou de 1831 a 1836, explorou as águas da América do Sul, seguindo para o Taiti e Nova Zelândia, e retornou à Inglaterra, passando pela ilha Ascensão e pelos Açores. Todavia Darwin quase fora recusado para trabalhar a bordo do navio por causa do formato do seu nariz. O capitão, Robert Fitzroy, orgulhoso de sua capacidade de julgar o caráter pelas feições do rosto, tinha certeza de que o nariz de Darwin indicava um homem preguiçoso, mas ele conseguiu convence-lo do contrário. Fitzroy, um homem extremamente religioso, desejava a presença de um naturalista a bordo para encontrar provas concretas sobre a teoria bíblica da criação. Escolhera o homem errado.
A viagem rendeu a Darwin a oportunidade ímpar de observar uma variedade de vida animal e vegetal e de coletar diversas espécies, além de enorme quantidade de dados. A viagem também parece ter mudado sua personalidade. Não mais um diletante e amante do prazer, Darwin retornou à Inglaterra como um cientista dedicado e com uma única paixão: desenvolver a teoria da evolução.
Casou-se em 1839 e três anos depois mudou-se com a esposa para o vilarejo de Down, a 26 quilômetros de Londres, onde pôde concentrar-se no trabalho sem as agitações da vida urbana. Sempre teve a saúde frágil e agora começava a sofrer de perturbações físicas como vômitos, gases, furúnculos, erupções cutâneas, tonturas, temores e depressão. Sua casa se transformou em uma “enfermaria onde ninguém era saudável; a doença era regra e a saúde uma exceção”.
Os sintomas de Darwin eram aparentemente de fundo neurótico, provocados por qualquer interrupção na sua rotina diária. Sempre que alguma interferência externa o impedia de trabalhar, sofria outro ataque. A doença tornara-se um mecanismo conveniente, protegendo-o dos afazeres mundanos e proporcionando a solidão e a concentração necessárias para ele criar e desenvolver sua teoria da evolução. Um escritor batizou a condição de Darwin de “maldição criativa”.
Darwin tinha motivos de sobra pra se preocupar. A idéia de evolução vinha sendo condenada pelas autoridades religiosas conservadoras e até em alguns meios acadêmicos. O clero, entendendo-a como moralmente degenerativa e subversiva, pregava que, se as pessoas fossem retratadas como animais, igualmente se comportariam. O resultado de tal selvageria certamente causaria o colapso da civilização.
Darwin se autodenominava o “capelão do demônio”, dizendo a um amigo que trabalhar na teoria da evolução era como confessar um assassinato. Ele sabia que, quando publicasse o livro, seria condenado por heresia. Percebeu que essas preocupações com o trabalho eram a causa dos seus persistentes males físicos, “a maior parte dos males de que a minha carne é herdeira”. Esperou 22 anos para apresentar publicamente as suas idéias, pois desejava ter a certeza de que, ao fazê-lo, a teoria estaria perfeitamente apoiada em provas científicas irrefutáveis. Assim, Darwin prosseguiu no trabalho com calma e com cuidado extremamente religioso.
Em 1842, Darwin redigiu um esquema de 35 páginas da sua teoria da evolução. Dois anos mais tarde, expandiu as idéias em um ensaio de 200 páginas, mas ainda não estava satisfeito. Continuou a manter segredo da maior parte do seu trabalho, compartilhando as idéias apenas com os amigos mais íntimos, como o geólogo Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker. Por mais 15 anos Darwin elaborou e trabalhou seus dados, conferindo aperfeiçoando, revisando, insistindo para que todos os aspectos da sua posição fossem inquestionáveis.
Ninguém sabe ao certo quanto tempo mais ele estenderia seu trabalho se não houvesse recebido uma carta chocante, em junho de 1858, de uma pessoa chamada Alfred Russel Wallace, um naturalista 14 anos mais jovem que ele. Morando nas índias Orientais para se recuperar de uma doença, Wallace esboçara uma teoria da evolução nitidamente semelhante à de Darwin, embora não estivesse baseada em dados tão ricos como os coletados por ele. E o pior é que Wallace afirmava ter desenvolvido a sua teoria completa em apenas três dias! Pedia a opinião e a ajuda de Darwin para publicá-la.
Anos mais tarde, Wallace contou que o efeito causado pelo seu pequeno trabalho em Darwin foi “quase paralisante”. “Foi como se Darwin estivesse lendo a própria teoria”, disse um biógrafo de Wallace. “Qualquer noção de sua importância desaparecera, sua originalidade fora mascarada”.
Assim como vários cientistas, Darwin era muito ambicioso. Escreveu em seu diário: “Gostaria de conseguir não valorizar essa tal fama. E ainda abomino a idéia de escrever porque é importante criar; todavia certamente ficaria contrariado se outra pessoa publicasse essas doutrinas antes de mim”. Darwin disse ao amigo Lyell que, se ajudasse Wallace a publicar sua teoria, todos os seus anos de trabalho árduo e, o mais importante, o crédito pela criação da teoria da evolução estariam perdidos.
Enquanto ficava em duvida se devia ajudar Wallace ou apressar a publicação de seu trabalho, seu filho de 18 meses morreu de febre escarlatina. Desesperado, Darwin remoia a respeito das implicações da carta de Wallace e as opções que surgiram para si próprio. Finalmente, munido de enorme sentido de justiça e de bom senso, decidiu: “Parece difícil para mim perder a prioridade de vários anos de dedicação, mas não tenho certeza absoluta de que isso altere a justiça do caso. Seria desonesto de minha parte publicar agora”.
Lyell e Hooker sugeriram que tanto o trabalho de Wallace como partes do livro de Darwin que estava para ser publicado fossem lidos em um encontro na sociedade Linneana (uma sociedade científica cujo nome homenageia o naturalista sueco Linnaeus), em 1° de julho de 1858, no mesmo dia em que o filho de Darwin fora enterrado. O resto está registrado na história. Todas as 1.250 cópias da primeira edição do livro de Darwin, On the origin of species, foram vendidas no dia da publicação. A obra provocou reações e discussões imediatas, a Darwin, embora fosse objeto de consideráveis críticas, ganhou a “tal da fama”.
Quando o livro foi publicado, Darwin foi acometido de novas enfermidades. Ele descreveu uma “terrível e longa ânsia de vômito”, “furúnculos que ardiam”, além de se sentir “extremamente mal e em cacos”. Fugiu para uma estância hidromineral no norte da Inglaterra, onde se escondeu do mundo por dois meses. Wallace nunca expressou ressentimento por não receber o reconhecimento proporcional pelo desenvolvimento de uma teoria tão semelhante à de Darwin. Na verdade, sua reação foi praticamente contrária. Quando soube que o seu trabalho e o de Darwin seriam lidos na Sociedade Linneana, Wallace declarou haver recebido “mais reconhecimento e crédito do que merecia”. Mostrou-se satisfeito quando soube que, ao mandar seus papéis para Darwin, ele fora o “meio inconsciente que fez com que [Darwin] se concentrasse na tarefa” para completar um dos livros mais importantes da história.
Charles Darwin deixou uma obra extensa. Guardava em seu escritório frascos com amostras de várias espécies animais e vegetais. e apesar da igreja fazer campanhas severas contra as suas idéias, permitiu que, após sua morte em 19 de abril de 1872, fosse enterrado na abadia de Westminster, ao lado de Isaac Newton. Esse fato fez com que, um tempo depois do enterro, seu filho fizesse um comentário: “Você pode imaginar que conversas deliciosas o pai e Sir Isaac terão à noite, depois que a abadia fechar e tudo ficar quieto?”
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